Leitura e compreensão Apocalipse

Leitura e compreensão Apocalipse

O livro de Apocalipse é único. Ao mesmo tempo que é uma carta, semelhante às outras cartas no Novo Testamento, escrita para pessoas que estão em um contexto histórico/geográfico específico (Apocalipse 1:4), ele é diferente, porque é mais do que uma instrução sobre ética e doutrina cristã, que é a ênfase primária das outras cartas do Novo Testamento. Apocalipse é “profecia” também (Apocalipse 1:4, 22:18-19). Sua singularidade está composta pelo fato de que essa carta com mensagem profética é escrita num estilo destinado a chamar a atenção, intensamente gráfico e um drama épico. Apocalipse é uma escrita apocalíptica – um gênero especial que maximiza esses recursos para trazer efeito. Eu chamo isso de “televisão HD” da literatura bíblica. Lê-lo como uma prosa comum literal seria um erro.

Os destinatários da carta eram membros da comunidade cristã na sociedade grego-romana da época, onde os cidadãos eram legalmente obrigados a prestar fidelidade a Roma e ao seu imperador, até mesmo a considerá-los como deuses. Os cristãos, no entanto, estavam comprometidos com um Senhor – exclusivamente “Jesus Cristo como Senhor”. Eles eram vistos, portanto, como inimigos do Estado—membros de um movimento criminoso subversivo a ser controlado, restringido, perseguido e/ou eliminado. O autor de Apocalipse, o apóstolo João, está escrevendo enquanto é prisioneiro do Estado em um confinamento solitário numa ilha-prisão por causa de suas convicções cristãs. É compreensível, então, que a mensagem que fosse enviada para a comunidade nessa carta fosse criptografada e codificada para que somente os destinatários desejados pudessem entendê-la. Era um documento interno que seria um enigma para os de fora, mesmo que caísse em suas mãos.

Em primeiro lugar, para entender Apocalipse, os leitores tinham que ser familiarizados com a linguagem e a literatura do Antigo Testamento. A carta tem uma abundância de simbolismos e alusões tiradas do Antigo Testamento, tanto em sua estrutura quanto na sua mensagem. Em segundo lugar, era preciso investir completamente na história do evangelho de Jesus. Jesus deveria ser entendido como o rei messiânico (o Cristo) que inaugurou (e foi o agente do) o futuro governo redentor de Deus—o reino de Deus. Ele era o Deus que se tornou humano e viveu uma vida exemplar, morreu como sacrifício expiatório por todo o pecado humano e, depois, vitoriosamente, levantou-se dentre os mortos. Essa sequência trouxe para a história o evento final previsto para culminar a história – a ressurreição dos mortos, que é um evento associado à vinda do reino de Deus. Como tal, Jesus é o cumprimento das expectativas do Antigo Testamento, estabelecento Seu senhorio sobre tudo (Daniel 7:13-14).

O evangelho que encontramos em Apocalipse é que o reino de Deus já tinha vindo, embora ainda não plenamente. O conhecimento desta história evangélica tendo como pano de fundo a familiaridade com o Antigo Testamento adquire significado quando se busca entender a mensagem da carta. 

O estilo dramático do gênero apocalíptico leva o leitor para uma dimensão supra-histórica da realidade. É épico e utiliza imagens de palavras ricas, vívidas e maiores que a vida. Assim, enquanto a situação histórica dos destinatários é de virtual impotência para fazer qualquer coisa sobre sua experiência de sofrimento nas mãos da elite do poder institucional terreno, o drama apocalíptico de Apocalipse afirma uma realidade que está além da história (embora inclua a história), onde Deus está no controle final. A mensagem é que a fidelidade inabalável dos crentes a Deus está bem colocada. Eles são e serão justificados, mas os inimigos de Deus que perpetuam seu sofrimento presente experimentarão a inescapável ira de Deus.

Além disso, os crentes são assegurados completamente de que são identificados com a vitória de Deus. A mensagem de esperança no meio do que parece ser uma luta insuportável é eficazmente comunicada na carta. Ela transmite a esperança “certa” do “já, mas ainda não” do reino de Deus e abastece a perseverança nas piores circunstâncias que os primeiros cristãos enfrentavam. Duas coisas devem, então, ser ditas: 1) Apocalipse era compreensível e particularmente relevante para a situação que os primeiros cristãos enfrentavam, e, 2) seu significado profético, mesmo falando especificamente para a situação contemporânea deles, também continua falando com cristãos nos quase 2000 anos de sua existência e com a nossa situação contemporânea com uma especificidade alarmante.

Apocalipse 7 ilustra o drama literário dos identificados como “Servos de Deus”, descritos como um exército alinhado para formação de batalha—na história, a luta é em sua experiência de angústia e sofrimento. A cena então muda – além da história, esses servos de Deus são identificados como infinitamente numerosos e exaustivamente diversos. Juntos, eles celebram a vitória sobre o sofrimento e recebem a garantia de proteção eterna, provisões satisfatórias e ternos mimos de seu Deus.

Sam Vassel

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